Leite faz bem ou faz mal?

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Há mais de 1 semana atrás, toca meu celular – ” Dra Jaqueline, sou repórter da….estou realizando uma matéria sobre os benefícios e malefícios do leite e gostaria da sua entrevista e colaboração….” . Estive por mais de 30 min conversando com a repórter, fornecendo informações científicas, com base em estudos recentes, e discutindo a polêmica atual. Para minha surpresa, ao ler a matéria no site do Jornal de grande circulação no RS, a menção de tudo que foi conversado na “entrevista” é: ” Cada copo de leite tem 240 miligramas do mineral. Em geral, adultos precisam consumir 1 mil miligramas de cálcio por dia para a manutenção da massa óssea. Ou seja, quatro copos de leite. A médica nutróloga Jaqueline Coelho lembra que, para obter a mesma quantidade de cálcio oferecida por um copo de leite por fonte vegetal, é preciso consumir, por exemplo, de quatro a cinco xícaras de couve por dia. Índice que ainda é menos de um terço da necessidade diária. “

Gostaria que meus pacientes e as pessoas que consomem leite fossem alertadas para o “terrorismo” nutricional que atualmente se faz perante este alimento, e para aqueles que optaram em exclui-lo do cardápio por algum motivo, que possuam informações corretas, de embasamento científico, para poderem optar com consciência após os devidos esclarecimentos.

Somos seres evoluídos na cadeia alimentar, nosso organismo se adaptou e evoluiu ao longo de séculos, sendo o nosso intestino  capaz de digerir e absorver proteínas vegetais e animais, desde que não possua nenhuma doença intestinal associada . Nossos rins também são capazes de filtrar todas as proteínas, e somente o excesso delas ou alguma doença renal poderia afetar tal função. Lembrando que dificilmente uma pessoa com alimentação balanceada consiga ultrapassar o excesso proteico diário (> 2g/kg/dia) .

Mas o tema principal é o leite…e suas características. Ele é um alimento rico em proteínas, ácidos graxos saturados, cálcio, fósforo, potássio e magnésio. Seu papel principal, há muito estudado, é a prevenção da Osteoporose através da manutenção de massa óssea pelo consumo de cálcio ao longo da vida, mas

Nossa massa óssea se forma até os 25 anos de idade. A partir daí, ocorre a manutenção dela, com sua degradação após os 45-50 anos e seu agravamento após a menopausa feminina. O homem também perde massa óssea com o envelhecimento, mas em menor intensidade e velocidade do que a mulher. Portanto, quanto melhor formada e mantida tal massa, menor será  a perda lá na velhice. A necessidade de cálcio, para tais funções, varia conforme sexo e idade, mas de uma forma geral gira em torno de 800-1200 mg/dia. Considerando que um copo de leite e/ou iogurte possui em torno de 240mg/calcio e uma xícara de vegetais verde- escuros (couve, escarola, brocolis, mostarda, agrião) possui em torno de 100mg/calcio, percebe-se a necessidade de um alto consumo de vegetais para atingir o recomendado e prevenir a degradação óssea excluindo os derivados do leite da alimentação.

Muitos trabalhos recentes (citados na Bibliografia abaixo) correlacionam seu consumo com redução de outras doenças além da Osteoporose. Um estudo italiano, publicado em 2017, mostrou o efeito anti-inflamatório do consumo de leite, independente do teor de gordura ou fermentação, principalmente em pacientes portadores de síndrome metabólica (um conjunto de doenças caracterizada por obesidade, diabetes, dislipidemia, aumento da circunferência abdominal). Sabemos que a Obesidade mantém um baixo grau sistêmico e crônico de inflamação no organismo, que pode ser ajustado conforme os componentes da dieta, como ácidos graxos, vitaminas, minerais.

Outro trabalho de revisão de 2016 evidencia uma tendência do consumo de leite e/ou derivados (principalmente o iogurte) na prevenção do desenvolvimento do Diabetes tipo 2.. Uma revisão sistemática canadense de 2016 mostra também uma associação do consumo de leite e/ou derivados com redução dos fatores de risco cardiovasculares, como pressão alta, diabetes e síndrome metabólica.

Mas …e o leite faz mal? Sabemos que existem pessoas intolerantes ao açúcar do leite (lactose) ou à proteína do mesmo (alergia à proteína do leite). Outras ainda, possuem doenças intestinais como Síndrome do Intestino Irritável, Doença Inflamatória Intestinal, Doença Celíaca….para estas pessoas, o consumo pode ser desconfortável, levando a sinais e sintomas decorrentes de tais doença. Ambas ainda se confundem entre pacientes e profissionais da saúde, requerendo o auxilio de profissional habilitado para realizar a diferenciação, diagnóstico e tratamento. Por vezes é necessário reduzir ou até abolir o consumo de leite e derivados, mas estas situações são específicas, e a orientação profissional é de extrema importância para não ocorrerem deficiências nutricionais com a exclusão.

Importante salientar que até o momento não possuímos nenhum estudo que tenha demonstrado aumento do risco de doenças graves, como Infarto, derrame ou câncer com o consumo do leite.

Estes  estudos citados vão ao encontro das recomendações internacionais de que o leite e/ou derivados são parte de uma alimentação balanceada e saudável, podendo seu consumo contribuir para a prevenção de doenças crônicas.

 

BIBLIOGRAFIA:

Padre Chagas, 140 - 5º andar / Moinhos de Vento - Porto Alegre/RS